Poemas publicados III

NEUROCIDADE

Cidade: penso, vezes ainda penso,

e reinvento tudo, coloco seivas e inauguro plantas

e me proponho o ventre livre de todos os flagelos.

Mulher: não explico, apenas justifico.

Dia: o it, o id, o clique.

Tempo: quinhentos anos de falta de perspectiva.

Nua: aumentada em  mim, eu me escondo no silêncio,

estranho silêncio de investigar, contornar, aquecer, agüar.

Lembrança: precisa-se de poetas,

tratar na rua das Laranjeiras, onde nascemos.

Tempo: outubrismo.

Insânia: vezes apresento movimentos em roda dentada.

Inscrição: o açúcar é doce,

mas o sexo não vai estragar seus dentes.

Noite: todas as outras noites de insurreição

que a idade motivou.

Mulher: rastro epidérmico, umectante.

Memória: um olho de boi, suplicante, antes da guilhotina.

Criança: e a verdade absoluta de que não há acaso.

Lágrima: um rio, um Sena, um São Francisco.

Nua: a mulher galopando por sobre fibras desatinadas.

Distância: desangústia.

Paixão: dispnéia de passagem para outro tempo físico.

Tempo: milhões de r.p.m.

Homem: prognose.

Fantasia: descolorir o sorriso da Madona.

Fantasia: sair correndo céu, desconectada nuvem.

Nua: leia-se com calma.

Laudo: maria-qualquer-coisa, geração espontânea,mão-de-obra não qualificada, batizada pelo fogo do inferno, sem residência fixa, encontrada morta no beco essencial,à disposição por três dias no principal necrotério da cidade, após o que será enterrada como indigente.

Cidade: uma grande caverna mal cheirosa,de onde escorre o mel dos tolos, democraticamente tão bastardos.

Metáfora: abrir as pernas e ser clássica.

Mulher: libido versus interação social, conflito de satisfação.

Associação livre: parece uma bomba de encher bicicleta e é também um caule audaz sustentando a flor.

Local: nenhum.

Dia: o it, o id, o chique.

Cabeça: não tem registro.

Referência: bóia zero, placas fosforescentes, as setas, as metas, o meio-termo – atenção, cuidado, não pise na lama – a exceção, a consciência, horário de expediente, temos o maior público enchendo o teatro, lotação esgotada, no Brasil sempre cabe mais um, explode IBGE.

Objetivo: mudar sempre de estratégia.

Pesquisa: a lua perde a velocidade e ameaça cair.

Música: a valsa do imperador, adaptada.

Mulher: começa a flutuar, levemente, veste-se de amarelo, faz poemas noturnos, é sensual, é mórbida, critica a história e vive.

Tempo: agora, mais uma vez em sentido horário. Merda, a vida é bela nos equinócios!

Cabeça: de jure constituendo.

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MONARQUIA ABSOLUTA

Dentro da lógica

Há um relógio

Que marca as mesmas horas.

Dentro das horas

Há um reilógico

Que diz pra gente fazer assim, assim.

O rei morreu.

Viva o outro rei

Que diz pra gente fazer assim, assim.

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FENÔMENO

 Nascida

e tangida à ira

num ano da década dos sessenta.

Crescida

e tornada cínica

num tempo de marcha cívica.

em frente à lanchonete muita moda na roda

que geração mais bonita

um olé de hambúrgueres aos mais valentes

os james dean ressuscitados pelas motos

que descrevem as direções convergentes

as cabeças são todas frutas saborosas embutidas nos sorvetes

ice-creams antárticos que povoam os sonhos ácidos

pode-se ver o sangue açucarado nas têmporas agitadas

em rostos nacarados os olhares

apaixonados pelas telas panorâmicas

que o visual é superestimado pelos rebanhos multivinculados

o que os olhos não vêem o coração não sente

que o amor é relíquia de avós falecidas

que a mocinha aprisionou num broche

e a inteligência arrebita o nariz nas olimpíadas

yesterday something lhes foi dita

talvez pra desmontarem o cavalo de tróia

e eu não entender nada

porque a casta fechou-se

e o segredo isola o vírus da consciência.

Em frente à lanchonete de neón gritante eu sou como eles

eu sou eles, meus filhos, netos

não pode ser apenas uma questão de ser, por Sartre!

eu preciso de um código, um sinal

– pode ser com o dedão do pé

– eu preciso  entender e não lhes fazer mal

preciso da linguagem mágica, da poesia-beleza

do amor pós-guerra

das mil e uma noites dos quinze anos de idade

eu preciso aprender as notícias e a desbotar os jeans.

eu sou como eles e tento:

gosto de waffles com geléia geral

gosto de saber do que vocês gostam

e também acho os eixos da vida

macabramente imponentes.

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VIDA EMOCIONAL

Sou eu

imitada num espelho que acusa

batom e púrpura liquefeitos em emoções

checando a lágrima infalível

expondo o ardil de fabricar manchas violáceas

com persuasão

(face mais usual, referendada no divã do analista

que me quis transacionada).

Às vezes sou eu

e um impossível tiro na nuca

– o livre-arbítrio de quem já está nascida.

Nem sempre sou eu

quando reflexo do eu coletivo

ou quando reflito sobre o teu motivo

– que há a inquisição

que eu detesto e me apavora.

Mas quase sempre sou eu

a vacina da família nascida nos lençóis da bahia

parida noutra baía em tempo de depressão

– pois era pra ser deprimida e conter a rebelião.

Que nunca fui eu

a pedra monolítica fatídica, esta não.

Fingiram-me amestrada, égua de pelo macio

comum a todos os campos de ação

que em tudo há conveniência.

E fui eu que roubei-os a todos

da comoção à razão

quando tive na vida o primeiro cio de paixão.

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