Poemas publicados VII

MENINO

para Alexandre

fosse apenas meu filho

menino criança gente

fosse apenas meu filho

espanto náusea tristeza

fosse apenas meu filho

e lhe bastaria a certeza do ventre

fosse apenas meu filho

pra compensar tanto azar

fosse meu filho

entre paus e pedras

meu filho

por que lutar

fosse meu filho

com insistência

e que valentia

meu filho homem

da noite pro dia.

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COMO TANTOS

João amava Maria

no começo todo dia.

João amava o olhar de Maria

o sorriso de Maria

o amor entre as pernas de Maria.

João deu vestido

fez um filho pra Maria.

Hoje na construção

João desaba sobre Maria

as pedras da profissão.

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O SONO ALFA

Sonhei contigo esta noite e te matava chorando entre aspas

e do meu simbólico revólver saíam balas soft

e você sorria metálico questionando os vermes da minha cabeça

então menstruei desequilibrando o sistema

e enquanto perplexo procuravas minha arma

eu te oferecia arte olhando para você retilínea

e acabando por desmontar teu esquema sedutor.

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RAPSÓDIA EM NEGRITO

O amor feito sobre o sofá verde-gaio

a luz insinuada pela opalina cara

o vinho rubi.

O olhar ultramarino e sonso

um dente de marfim percorrendo o lacre

abrindo o carmim.

O objeto que arranhou

delicadamente

foi um colar de lápis-lazúli.

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PRAZER

O espasmo

o último

num átimo

teu corpo

em arco

a íris

o membro

entranhado

num ai.

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O AMOR

Tua cabeça acreditada

na vagina submersa

corpos.

Rangem o tempo e as tábuas

como sinfonia.

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O GÁS BELÍSSIMO

Areias e espumas congeladas de um mar de infância quando eu era deusa onipotente dos lugares longe e perto escrevendo um livro e dedicando o mesmo livro confundindo a disritmia ovariana com a bruxaria a alquimia, a sorte nos dados.

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EXERCÍCIO DE ÓDIO

é porta de igreja

é só pra olhar

põe o dedo na chaga não

olhe e se contenta em olhar

deixa o sangue brotar

deixa o dinheiro na lona

deixa o miserável na zona

deixa e deixa o membro sofrer

deixa e deixa o bicho comer

é porta do inferno

é fogo na brasa

é ferida magoada

é jejum madrugada

é frio

é fome

é porta fechada

pra tua passagem

deixa andar

deixa azar

desgraçar

não vá confirmar

o dia

a pontaria

a afronta não conta

o perdão já não há

é só pra olhar

sem espanto

que teus olhos ainda vão ver tanto!

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