Poemas publicados VIII

GATO PRETO NO ESCURO

O passo de medo

o fracasso

cabeça idéia

preconcebida de dor

o passo receio

de evitar o contágio

o passo  paixão

consumindo a carne

o passo culpa

impedindo o ato

o passo restrito

o sexo

interrompido.

O passo sem trégua

e o mundo sem dó.

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POMBA-GIRA

Eis a mulher dos bandidos

arrimos

perdidos

pirados

Eis o ventre antigo

da festa

da traça

da farsa

Eis a fêmea do riso

do grito

do pico

Eis a sombra dos muros

dos urros

dos tiros

Eis a mãe disso tudo

da gira

do mundo.

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 EXERCÍCIO DIÁRIO

Da janela olhar meu país

– a terra roxa e a raiz –

garras da fome fincadas em entranhas varonis.

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A LUA, MAS NÃO A LUA DE LORCA

Havia uma rua

uma mulher nua

uma lua que subia

que descia

que aparecia e desaparecia

que se assanhava e que desistia

que hesitava e por fim se abria

fazia noite, fizesse dia.

No dia do crime da lua

– que se deu de imprevisto por causa do amor –

a rua toda emudeceu suas casas

e a mulher foi julgada

silenciosamente.

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MITOLOGIA

Meu amor é você

chegando em casa

na hora certa de chegar

esquecido das flores

e da carta de recomendação

me convidando para uma danza habanera

antes dos atos de rendição.

Meu amor é você que chega atrasado

e já encontra o quarto desarrumado

pela minha hipertensão.

É  você que chega num estilo indefinido

como fazendo cena íntima de novela

e saindo do ar depois.

É você e a gesticulação

que antecede o salto ornamental

nas dobras do meu coração.

Meu amor é você

que vem sempre em missão de agitação

me amar com seu ódio santo

e me odiar com seu amor de esteta.

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ANA

    Para Adriana

       

Ana-banana

gamela suada

o rosto de giz

curiosa de ouvido

boca e nariz

atrevida com a mão

o passo de andar tudo correndo

ana ao contrário tudo entendendo

remorso nenhum de me duvidar

ana e a razão de amuar-se

ana de instinto despindo o juízo

ana de fato e de muito riso

ana dormindo com anjo custódio

ana acordando manteiga com pão

ana domingo toda semana

ana brinquedo-de-chamar-ana

ana sonhando pueril furta-cor

ana pondo e dispondo mundo

a seu favor

ana mirim adriática origem

ana enfeitada baiana por mim

cintura e quadris de futura donzela

não séria e do amor

aprendiz.

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 AS COISAS TROPICAIS

Iremos pra dentro

da terra uterina

do coração espelho

do teu pensamento

iremos pra dentro:

de fragmentos

ainda sonolentos

despertar intactos

iremos vento:

soprar direções

cantos insensatos

iremos pão

beber ilusões

de amores tácitos

beijar a boca

das multidões

iremos mar:

rever infâncias

assobiar

iremos correntes

vertentes só navegar

iremos sim:

responder amor

descompromissar

anunciar que tudo

desacostumou.

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AQUARELA BRASILEIRA

Pés no bruto chão

e mãos vazias

sem rumo no olhar

no desfazer das rimas

amor, pão e alegria se acham no final da

linha.

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