Poemas Dispersos II

DOIDO

Disse que tinha olhos azuis

(cobalto? cerúleo?

Não. Ultramar)

Disse que se chamava

— como é mesmo o nome

naquele inidioma?

E vinha de muito longe:

no mapa não existiu

nunca uma indicação

para  tal geografia

Dessa terra desmarcada

era o rei das sonharias

Contou-me de seu povo

de ancestrais e rainhas

Narrou acontecidos

de mansos e loucos varridos

Apontou com a mão no peito

a lasca no coração

(pensei ter ouvido  ruídos

tamanha era a solidão)

De onde veio trouxe nada

de ouro materializado.

O que deixou no caminho

era tudo que pesava

por isso o bolso vazio

e o poema bem trajado

Na memória um mundivivo

e muito para viver:

escrever em pergaminho

desenhar sobre cajados

acordar para o solnascer

Perguntei se era maluco

disse que era sereno

Perguntei se tinha medo

respondeu que só de estátua

Se era de ter paixão?

que nem se preocupava

Se queria mundo novo

melhor pra toda gente?

era tudo o que sonhava:

Quando vinha furacão

era mais que renascente

andava por toda água

vazava em espiral de vento

girava junto com o tempo

Mas e de amor o que sabia?

que só assim se construía

Se vinha comigo então

pras terras que estão no mapa

fazer nova liberdade?

era o que ele queria

E uma mulher nos seus braços?

se eu quisesse caberia.

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ELA

Ela é louca se pretende ser femme fatale

logo ela

tão à vontade no pijama amarelo

tão descuidada dos objetos de maquiagem

tão de óculos e livros debaixo do braço

um alô bem tônico ao telefone

e um par de jeans tão retos e solitários

Ela

sem bijuterias

sem altura nos pés

os dedos nus

logo ela

sempre tão sincera, pudera

assim mesmo é que jamais

Ela que sequer é loura

e se recata toda se alguém olhar por ali

nem tentar algo além de um enfeitiçamento

e ser achada vaga estrela do Cruzeiro do Sul

sensual nos cantos de um apartamento

após cinco ou seis lances de escada

Aí, talvez

ela comece ficando descalça.

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ELOGIO À FALSIDADE

Quais serão tuas falácias,

quando te apresentas fulano de tal,

seu mosqueteiro,

pisando sobre a via láctea,

chovendo em meus lagos,

desarrumando meu peito?

Quem é você que me chama sob águas

e me faz de égua a correr por sobre  pontes

esquecida dos cabrestos e antigos donos?

Qual é tua loucura rodopiante,

teu secreto,

teu incesto,

tua desonra,

a urdidura que rói tuas unhas?

Onde tua maldição, tua doçura

e o tiro de revolução?

De onde tais olhares

embutidos em lentes tripartidas,

obstinados na tintura de uns versos

sobre letras verossímeis?

O que fazem desconcertantes essas mãos

em tua boca de mentira e incitamento?

Por que tua existência que eu não sabia antes

como primitiva argila

trincado monumento?

Quanto tempo perdido tem esse teu beijo

depois da ronda  na cidade,

da baldeação dos corpos,

da reiterada cama onde te aninhas?

Como tu ousas chegar  já na saída?

E por quais motivos a mim tu necessitas –

ao lado inofensiva,

por cima desconcertante,

por baixo esmagada e combustiva?

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DESGRAÇA POUCA É BOBAGEM

O filho da mãe há tempos  não queria intimidade

Desejo carnal era só pela picanha mal-passada

De noite, na cama, não encostava, não roçava

só dormia e roncava

Adiantou nada colorir o cabelo com luzes e reflexos

Fazer o caminho de Santiago na esteira

Nem seguir a dieta da vaca magra

Invisível se tornara, quem sabe surda

Pois sua voz quase não ouvia

Chegou a ser confundida com o sofá da sala

E foi acusada de ter perdido um gol de placa

As amigas sorriam amarelo e diziam vai passar

Os búzios e o tarô revelaram leucemia e falência

E o detetive lhe entregou as provas digitais do motivo

a causa loura, alta, bonita e estagiária

de mesa, cama e banho

Assim endoideceu:

Pechinchou um calibre 38

determinou um rompante

desfez a  linha de carretel

deu nó na barra da saia

e rodopiou num alucino

gritando mesquinharias na cozinha

pra vizinhança testemunhar.

Mulher traída é cidadã

plena de direitos e atenuantes:

atira pra matar.

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HERÓICA

Naquela boca eu desejava

um beijo

e uma torta de merengue

e depois lamber aquela torta-boca

que a gula sempre me deixa

o melhor pedaço por último

(essa minha gula adulta

acha que ninguém vai me roubar o último pedaço)

Olhando os olhos dele

fiz dentro daquela boca um beijo

antes que um

dois

três pensamentos

mandassem calar

a boca a beijar

Depois

sem torta e sem beijo

chorei no abstrato.

número sem par

Mas nunca fui tão nobre

sem precisar de um tango

(caráter é o que não me falta nessas horas)

mesmo cheia de vontades

suspendi o prazer

e beijei a espuma do travesseiro

Eu beijei a lona

mais uma vez.

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