A Santa Ceia

Vejo umas fotos de crianças famintas da Etiópia. E da Nigéria. E da Somália. São tantas.  Confiro na alma com outras fotos de outras crianças, as brasileiras, e com outras, de vários lugares. Todas têm em comum a mesma fome. Essas crianças flagradas em seu estado de mínima humanidade não se parecem em nada com aquelas que conhecemos de perto. Nenhuma semelhança com as nossas crianças, com as dos parentes, amigos e vizinhos, com as das escolas,  das propagandas de consumo na televisão, dos adesivos dos chocolates, das figurinhas dos chicletes, dos posters das farinhas lácteas, das tabelas pediátricas, do futuro das pátrias.

Não se parecem, as crianças da Etiópia, com aquelas rechonchudas da América do Norte ou as coradinhas dos Países Baixos. A fome desses pequenos seres do Brasil, Angola, Biafra, Somália, Bangladesh, Paquistão, Afeganistão e outros territórios sugere a existência de uma sub-raça espalhada pela terceira face da Terra, apresentada ao mundo em foto-imagens quase marcianas de tão inacreditáveis e que impõem uma distância  que atenua o impacto da desgraça.  O que os olhos não vêem ao vivo o coração não sente. E se o coração sente, o egoísmo prevalece na bolsa de valores atuais.

Também, essas  crianças são tão desconhecidas! Elas  não têm nome, dados pessoais, gracinhas e outras peculiaridades que despertem o modo de bondade das pessoas.  Não se chamam essas crianças Baby Fae, nem Danilo, nem Luciana.  Não fazem parte de campanhas para doação de órgãos nem necessitam dos avanços da medicina em cirurgias de alta tecnologia e sofisticação.

Só precisam de comida.

Impossível que não o consigam, não é mesmo?

E não conseguem sequer um pedaço de pão, esses milhões de criancinhas com suas fomes anônimas!

Essas crianças com fome, que deixam filmar ou fotografar seus olhos opacos, a pele transparente, ossos salientes e membros atrofiados, conseguiram a façanha de desaprender a comer. Jamais tive notícia de que um animal, de qualquer espécie, desaprendesse o ato de comer. Não se trata de greve de fome.  Apenas falta de hábito,  total carência de alimento (essa coisa que, para muitos, é lixo a ser processado e, para outros tantos, excesso, abundância, prazer, fastio e até obesidade).

Essas crianças, meus caros, não sabem mais comer porque a justiça e a compaixão não freqüentam a roda miserável.

Mas essas crianças existem, no Brasil e no mundo – existem  morrendo, refugiadas de nós.

Embora numericamente perdidas nas estatísticas frias elaboradas pelos governos, cada uma delas é uma criança e cada criança tem a sua fome. Uma fome desumana e  permitida, geograficamente distante dos interesses políticos, econômicos e sociais dos governos e das sociedades. Porque o verdadeiro dilema da fome imposto a esses milhões de seres humanos está entre matar ou deixar morrer.

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