Sedução

Não consigo fazer mais nada, só penso nela, dias inteiros, todas as vinte e quatro horas. Minha cabeça está a mil, estou com comprometimento cardíaco, agitação psicomotora, insônia. E uma dor no saco. Tenho dores no coração e no saco, simultaneamente. É de morrer aos poucos ouvindo I’ve got you under my skin. E com quem, imagine? Frank Sinatra. Venho lutando bravamente para que eu aguente firme, para não ver os sinais, ouvir os apelos, sucumbir à paixão,  mas sinto que estou no limite. Maldição de Morgana, esse tesão todo e meu sexo em sublime vôo ao Himalaia, entende? Tudo isso por causa de uma mulher. Mas que mulher. Não me olhe assim, nem terminei a segunda dose do uísque. Ainda estou algo parecido com um perfeito cavalheiro ou o nó da gravata está meio frouxo? Diga, minhas faces estão avermelhadas? Você acha que estou tentando ficar desesperadamente bêbado hoje? E o pianista, vai atirar em mim?

– Para com isso…

– Estou ficando ao menos um pouco bêbado?

– Está. Bêbado, chato e fleumático.

– Mas como fleumático? Se estou apaixonado, perdidamente apaixonado, encantado, atraído, enredado, deleitado com tanta beleza, hipnotizado por tanta sensualidade, perplexo…

– Esquece o fleumático. Mas você está ficando chato. Há dois meses não fala em outra coisa a não ser nessa misteriosa, fantástica e extraordinária criatura do sexo feminino por quem se encontra em estado de paixão catatônica.

– Dois meses só de confissão. Estou apaixonado há muito, muito mais tempo.

– Você está é ficando louco. Dois meses ou seja lá quanto mais tempo for colado em uma mulher é contraproducente em todos os sentidos. Três dias, no máximo uma semana em caso de grave virgindade, motel não muito caro e o resto é silêncio, meu chapa. E pra quê se meter com mulher casada? E ainda por cima mulher de amigo? Você sabe que eu sou bom consumidor, mas quero distância das casadas, inclusive da minha própria. Prefiro manter os amigos, o uisquinho, meu joguinho de futebol. E o que não falta no mercado é carne, meu caro.

– E você está cada vez mais vulgar. Perdeu completamente a fibra da paixão, a sensibilidade, a sutileza e até o senso de estética.

– Mas em compensação estou o máximo em tecnologia sexual de ponta. Por falar nisso não quer passar lá em casa amanhã, para assistir um filme sueco, original, inédito? Só eu, você e mais uns dois ou três amigos. Usaremos a sala onde jogamos pôquer. As mulheres não entram, ficam conversando futilidades na sala de estar. A minha, você conhece, aquele peixe morto, só entra se for pra levar mais uma rodada de queijos e vinhos. Ela não curte mesmo essas coisas, entende?

– Talvez eu vá, tudo é possível.

– É, tudo é possível. Menos a misteriosa mulher…

– Ela não é a “misteriosa mulher”. Aliás, ela não é nem um pouco misteriosa e muito menos impossível. Ela é perfeitamente visível, límpida, natural.

– Então ela faz o gênero saudável? Pratica musculação? É vegetariana? E se faz de gostosa pra você? Qual é!

– Posso falar? A “mulher” é minha, eu a conheço bem e não é  nada disso que você está pensando. Ela é fácil, acessível. Está ao alcance das minhas mãos.

– É fácil? Casada e fácil? Então traça logo! Vai ver que o marido é brocha.

– Que brocha que nada. Ele entende bem de rapidinhas com vagabundas em motéis vagabundos em escapadas do trabalho durante quase todas as tardes da semana.

– E ela, sabe? E não dá o troco? Nunca traiu o marido?

– Talvez sim, talvez não. Espero que sim, ele merece.

– Você sabe, trair é só começar. Se ela já traiu, então é cobra criada. Vai lá, meu, sem perdão, e crau!

– Não seja vulgar. Honre pelo menos o Blue Label. É por minha conta, eu pago.

– Realmente, você está  ficando mais chato que bêbado. O que há com você hoje, cara?

– Eu vi a calcinha dela.

– Ora, ora. Que avanço! Há algumas semanas você  conseguiu ver de relance uma porção do seio esquerdo quando ela se curvou… pra quê mesmo? Não me lembro. Mas quase matamos uma garrafa de Red Label analisando um seio dentro de um sutiã.

– Do tipo meia-taça, desses que tem um arame acompanhando por baixo a curvatura dos seios.

– Que fixação, cara! E logo por seios caídos.

– Não são caídos. Percebi apenas uma queda suave.

– Como é que se percebe uma “queda suave”? Você conferiu?

– Não, eu deduzi. Sabe, acho que ela tem aquela caidinha de seios absolutamente indispensável em uma mulher madura e tão sedutora.

– O que um terceiro uísque não faz….

– Chamo-os de “seios displicentes”.

– Chamo-os de “tetas”. Seios caídos,  não importa o quanto a força da gravidade os tenha atraído, não passam de meras tetas. Acho que displicente é você, meu caro, que está cada vez menos exigente e muito mais cego em relação às mulheres. E como é que você viu a calcinha? Colocando ou tirando?

– Pendurada no banheiro.

– Antes ou depois?

– Durante. Durante uma festa, numa dessas chatíssimas reuniões promovidas por um desses inúmeros chatíssimos que ousamos apelidar de “nossos amigos”.  Foi na casa dela – não adianta me olhar assim, não vou dizer quem é…

– E?

– Acontece que precisei ir ao banheiro.

– E?
– O lavabo estava ocupado. O banheiro social também. Então invadi a suíte do casal.

– E?

– E lá estava ela, colocada graciosamente no alto da porta do box do chuveiro.

– Minúscula?

– Maiúscula.

– Calçola?

– Calcinha mesmo. Branca, macia, sem enfeites, sem recortes. Seda pura, cheirosa, lavada a sabonete. E a abertura das pernas não tinha elástico, era frouxa, meio larguinha, compreende? Com um acabamento em renda delicada, fina. Uma peça personalíssima, sem etiqueta, sem preço.

– Clássica.

– Limpa.

– Hum…já imaginou o tamanho da bunda…quero dizer, qual seria a medida dos quadris da sua amada, meu caro?

– Talvez uns 85 centímetros.

– Que tal este desenho?

– Não, isso aí é uma potranca.

– Melhorou?

– Não os faça tão exageradamente arredondados, assim parece uma caricatura. E simplifique mais as pernas, não são  tão longas e musculosas, ela não é corredora de maratona.

– Pernas paralíticas.

– Reversíveis. Mas continue. Sim, é magra, Os ombros menores, mas não atrofiados. Leves. O busto está bom, apenas diminua um pouco o tamanho e a circunferência. Aquela caidinha, suavemente. Agora a cintura, engrosse essas linhas na cintura.

– Então é menos.

– Não, é mais. Mais cintura,  harmoniosa, camuflada. Confortável.

– Mais cintura é menos cintura.

– Não, pra mim é mais. Sem curvas fechadas.

– Menos derrapante.

– Mais receptiva.

– Menos perigosa.

– Nem por isso, o perigo ali é iminente. Agora o ventre.

– A barriga, você quer dizer.

– Não, é uma gostosa saliência. Apenas faça um sombreado, sem exagero.

– É gordura.

– É uma saliência.

– Não faz ginástica, já teve filhos, é gordura.

– É saliência. Mais bonito que barriga reta. A dela é apetitosa.

– Pois aqui está, bom apetite. Posso passar ao monte?

– Acho que não há monte.

– Você bebeu demais, cara. Veja, derramou o uísque no colarinho. Ou você está babando?

– Não há monte. É uma incógnita. Quando olho pra lá, pra coisa dela, só vejo ela toda, mãos, pés, boca, olhos, até ouço sua voz. A coisa é imensa, cabe ela todinha, ela e a coisa são uma coisa só na minha cabeça. Mas ao mesmo tempo eu sei que é pequena, a coisa.

– Então você acha que a b…

– Não, por favor. Assim não dá. Estou falando da coisa dela, a coisa não tem nome e você não tem o direito de chamar assim se nem eu mesmo chamo de coisa alguma!

– Calma. É que todas têm uma boceta e eu pensei que, em sendo comum – a palavra, claro – a sua também tivesse e eu pudesse aplicá-la também a este caso específico. Perdão. Posso pelo menos sugerir alguns pelos pubianos para não ficar parecendo um manequim de fibra de vidro?

– Faça. Poucos pelos. Não que sejam raspados ou contornados, duvido que ela faça isso.

– Porra, você já dormiu com ela?

– Não, mas eu sei. Já a vi na praia, de biquíni, um desses pequenininhos, triangulares, e não cavados. O triângulo exatamente em cima do triângulo. Logo, os pelos preservados.

– Quer dar uma imaginada na dianteira? Desenho aqui ao lado…

– Não fode. Sem gozação. E ela não tem dianteira.

– Muito bem, então nada consta atrás.

– Meta essa sua língua…

– Ela tem ou não tem bunda?

– Pequena. Sob a minha  perspectiva ela tem uma deliciosa bundinha descontraída. Eu vi, acima do triângulo do biquíni, duas covinhas não muito fundas, apenas uma insinuação de reentrâncias naquela região. Aliás, belíssima.

– Região lombar.

– O final das costas e o início da bundinha são o melhor caminho para as carnes abaixo. O caminho faz um pequeno viés para as pernas.

– As irreversíveis.

– Reversíveis. Pernas de uma mulher.

– Bem torneadas? Devia ter dito antes quando estava desenhando essa parte.

– Estão bem assim, não são perfeitas mas se cruzam bem, são displicentes.

– Ela é toda displicente, hein?

– Enfia.

– Você está cavalheirescamente se embriagando pra poder me xingar em doses elegantes?

– Desculpe. Ou melhor, enfia mesmo. Outro uísque, por favor.

– Rasgo o desenho ou quer me dar a honra de fazer o rosto da misteriosa, esplêndida, encantadora, sedutora e displicente mulher?

– Você jamais seria capaz de desenhar o rosto dessa mulher.

– Por que não? Nunca fiz retratos falados, mas com a sua imaginação já estou acostumado. Você é meu amigo há muitos anos e conheço o teu gosto. Acho que posso adivinhar esse rosto baseando-me em tudo o que você tem de contado nesses meses.

– Será?

– A começar pela idade. Trinta? Quarenta? Mais? Menos? Morena? Cor dos cabelos? Olhos, grandes, pequenos? E a boca, lábios carnudos, finos? Bastam alguns detalhes e eis que te entrego tua mulher inesquecível.

– A boca… que boca. Beijável.  O tempo todo, beijável. Sinto que estamos sempre nos beijando, mesmo que eu esteja fumando e ela comendo espaguete.

– Eu disse que ela te provoca.  Deve ser uma grande jogadora, isso sim.

– Não, não é. Ela apenas existe assim, pra ela mesma. E além dela, só eu sei que ela é assim, só eu enxergo sua sexualidade, sua sensualidade.

– Acho que está lhe faltando vivência e sobrando imaginação. E álcool.

– Eu me alucino. Dia e noite eu me alucino pensando e sonhando com ela. Decorando, memorizando sua expressão, seus gestos, adivinhando seus beijos e o que há por entre suas pernas. Já dancei com ela várias vezes, sabia? Inclusive no último aniversário do marido imbecil. O corpo mais solto que já senti, sem pressão ou recuo, apenas um corpo solto, amável, de pele macia, febril. Tive que deixá-la em meio a uma música lenta…

– I’ve got you under my skin…

– Não, essa eu agüentei bem. A covardia foi Moonlight Serenade. E adivinha quem escolheu a trilha sonora de motel para a festa?

– O marido imbecil?

– Lógico, o aniversariante.

– Além de imbecil é burro.

– Muito burro. Eu até ouviria mil vezes Moonlight Serenade se estivesse sozinho com ela, apenas eu e ela e todos os jeitos de fazer amor e sexo.  Mas ali não dava. Tive uma ereção, não quis constrangê-la e alguém poderia perceber. E foi a mais longa e dolorida ereção da minha vida, tive que ir embora às pressas, mal consegui dirigir de volta pra casa, chorei, fiquei puto.

– Você deve estar numa seca danada, cara. É capaz de ter ereção se encostar em um poste.

– Não, sou capaz de viver de pau duro só em pensar nela.  E eu só penso nela, naquela pele quente. Ela é de pegar fogo, eu sei, e  eu incendeio junto. Ainda nos queimaremos, acredite. Tocaremos fogo na floresta amazônica.

– Afinal, ela vai dar ou não pra você?

– Acho que ela já me passou o problema. E está esperando a solução.

– Quer dizer que ela já te deu as coordenadas?

– Não, idiota. Ela não fornece pistas, não elabora nada. Ela apenas vive, sente, vibra e faz contato. O resto é com o outro. E o outro sou eu. Ela sabe que me “contatou”.

– Ainda acho que é jogo. Sofisticado, mas é jogo. Vai ver joga nos dois times, machista-feminista e aposta no que estiver ganhando. Percebeu o boboca que você é e está se fazendo de difícil.

– Entenda de uma vez por todas: não há jogo, ninguém está se fazendo de difícil. O que há é sedução. Uma sedução natural.

– Você está ficando maluco.

– Estou cada vez mais lúcido. E bêbado.

– Então por que não reduz o problema ao seu real tamanho? A questão toda é: trepar ou não trepar com a displicente mulher misteriosa. Se trepar, aposto que vai desencanar. Se não trepar, haja displicência! Ou o marido é ciumento e furioso. Vai ver que é isso, não trai porque tem medo.

– O marido é colérico mas não é um assassino. Se soubesse, cortaria relação com os adúlteros, tomaria alguns porres exibindo os chifres na noite, falando mal da mulher e se consolando com umas e outras do seu cardápio predileto, putas com pedigree. Ou sem, dependendo da marca do uísque.

– Como é que você sabe que  o marido é um corno manso, que não te daria um tiro ou arrebentaria a mulher de porrada?

– Porque ele não faz a menor idéia da mulher que tem. E se ele não sabe o que tem não vai se dar conta do que perdeu.  E, quer saber de uma coisa? Acabei de me decidir: termino essa dose de uísque e vou pegar essa mulher pra mim. Toda ela, e mais o que vier junto, a calcinha, os filhos, as dívidas e a trilha sonora com Moonlight Serenade.

– Pô, então vai fundo!  Mulher de amigo é homem, mas se o homem é um imbecil, fazer o quê, não é mesmo? Ele que se foda! Conte com a minha solidariedade, estou  contigo e não abro! E agora acho que você já pode me dizer quem é essa mulher, certo?

– Não.

– Pode confiar em mim. Eu acho que mereço saber, afinal venho te ouvindo as confidências e aturando teus porres nos últimos meses. Você me diz o nome dela, fazemos um brinde e eu pago a conta, juro!

– Não.

– Em nome da nossa amizade então pelo menos me diz quem é o marido imbecil. Vamos lá, diga, quem é o tal babaca?

– É…

– É…?

– É você. E pode deixar que eu pago a conta.

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