A Mulher da Ilha

Um homem velho e tarado avança em direção à menina que carrega uma pesada pasta com seus livros escolares, cadernos e lápis de cor.  No corredor escuro do apartamento não é uma sombra que se imagina, mas um velho tarado que caminha em direção à menina que não alcança a campainha da porta. Para mais perto avança o velho tarado, a menina assustada, a pasta pesada, a outra mão ocupada com a merendeira vazia do lanche de café-com-leite e pão com manteiga. Um velho. Uma menina de uniforme escolar azul-marinho, saia pregueada, blusinha e meias brancas e sapatos de sola dura. A campainha muito no alto, o velho tarado mais e mais perto. E os vidros que eram da metade da porta, opacos e facetados, quebram-se com o desespero dos braços da menina, libertos do peso da pasta e da merendeira. A mãe ouve o barulho e acolhe a menina de braços ensangüentados. O velho tarado recua e desaparece, deixando no ar do corredor escuro o cheiro forte da cachaça. A menina chora no colo da mãe que não entende seus vidros quebrados.

A menina anda solta pela ilha, pedalando sua bicicleta sem rodinhas, curiosa por conhecer cada montinho de areia e de olhar cada onda de mar. Veste roupinhas leves de verão, as pernas magrinhas de fora, o cabelo de cachos desarrumados, a pele amorenada pelo sol. A menina e sua bicicleta são donas da pequena ilha. Das ruas de terra bege e batida cheias de bosta de cavalo, dos pés de abricó, dos flamboyants de florzinhas vermelhas, das areias, dos peixes baiacus que incham a barriga com cócegas, dos caranguejos, dos siris, das águas vivas e das raias. É dona das barcas e canoas. É dona de tudo, sem título de propriedade, porque dona apenas em seus sonhos. E a bicicleta é presente de Papai Noel. A menina desce desabalada os caminhos das encostas, pés fora dos pedais, os braços levantados. A bicicleta por vezes tomba e o chão rala-lhe os joelhos e cotovelos.

Um homem velho em uma bicicleta masculina segue a menina com vontade tarada. A ilha não é mais segura, a menina não é mais livre. O homem prepara a armadilha, fecha o caminho após a curva com seu corpanzil apoiado na bicicleta preta. De um lado uma elevação de terra, do outro um abismo para as rochas onde o mar é mais bravo. E a menina é capturada e violentada sob o céu de um deus que nada vê. O homem vai embora e ela chora sua tarde até anoitecer, chora suas ondas de mar e sangue. Ergue do chão a bicicleta, pede-lhe que guarde segredo da infâmia e volta para casa sem sua criança.

A mulher da menina cresce com seu segredo tão escondido de que  nunca jamais qualquer coisa aconteceu. Cresce sem memória.

A mulher sem memória deita-se com o namorado e ele a acusa de não ter um hímen. Ela não lhe dá explicações. Nem a ele nem aos outros que se seguem. No que é de vazio sua memória se enche com a cultura dos livros e histórias alheias.  Ela cria sua persona, sua cabeça, seu corpo e seu sexo e acredita em outros atos e gestos que se parecem de amor. Não ama os homens, somente as crianças e os animais. A mulher tem um corpo sem memória para amar.

Mas ela dorme e sonha. Sonha com homens gentis nos gestos de amor e nas paixões bravias. Sonha com outras ilhas e caminhos largos com horizontes de escapes, sem curvas de emboscada. Engana-se com seus sonhos e mais uma vez ofende-se o corpo com os golpes de punhos fechados. Sangra até quase morrer junto com o feto, num tétano de cor roxa que faz esquentar e tremer, o aço do instrumento a perfurar sua entranha, o ruído da cascata de sangue. Acorda para as paredes brancas e sem nexo, o cheiro de éter, e outra memória a ser esvaziada.

A mulher endurece, oferta seu amor às crianças e aos animais e sua persona aos homens. A mulher amadurece, tem medo de dormir e sonhar. Entre o sonho, a memória e o tempo, seu corpo ainda é natureza antiga que clama por carinhos e prazeres. Priva-se, dá-se, recolhe-se, castiga-se, jejua de emoção e toques. Somente a persona rebela-se em labaredas de fogo capazes de apagar memórias.

A mulher envelhece ouvindo os gemidos de sua criança, acalentando-a com a beleza possível do mundo onírico, poético e perdoável. Sobrevive com suas catarses e versos. Vive com a alma da infância banida. O corpo é o fardo das cicatrizes dos cortes, das mutilações e células malignas, parado no tempo de menina. A mulher é a velha de dentro a proteger a menina no vão do ventre. A menina é quem ri, quem brinca ainda, quem insiste em sonhar outras ilhas. A mulher é o vergão, a criança um resto de inocência.

Um homem velho encontra por acaso a mulher. Traz papéis com versos e palavras de honra, candura no olhar e tem os braços compreensivos e de boa acolhida. A mulher afrouxa os nós, liberta-se de sua persona e adormece sua menina. O homem vem, simples e inofensivo, sem cordas nem ciladas. O homem tem cheiro de abricó, gosto de sal marinho, sombra de flamboyants, tamanho de ilha. Faz ouvir sua voz, ler sua história, tocar sua pele. Faz-se reconhecer um tempo de renascimento, faz-se liberdade para a criança cativa.  O homem recebe o corpo da mulher inundada e a ela se doa com o que é de delicado e o que é de furor. A mulher sem persona funde-se com sua criança. A mulher em seus gozos ouve o som do apito da barca atracando em porto seguro. A mulher e a menina atam seus laços de fita.

O homem parte em sua jangada noturna, pescador lacônico em silêncio e distância, esquecido das conchas, espumas e castelos de areia que o sol sustenta. O homem parte na lua mutante e deixa um destino sem rastro na memória da mulher. A mulher consola a criança que chora em sua ilha. E veste com a persona sua nudez humilhada e o espírito abatido.

A mulher é uma ilha que jaz sua criança no fundo do mar.

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