Domingo no Parque

Hoje maior dia claro de sol, coloco meus óculos escuros, eu precisava de um dia desses, estou sempre querendo ficar de noite, mais perto do meu desejo. Mas tiro proveito desse dia, levo crianças ao parque, observo os bambus, aprendo a deixar o vento bater.

Quem está no parque – a moça enfadada que tira e bota a roupa do bebê, passa filtro solar, oferece chá de erva-doce, ele recusa com a mãozinha e vira o rosto, ela o coloca sentado no carrinho azul-marinho, ajusta a posição para que ele veja o homem que faz bolhas de sabão, as bolhas adquirem cores translúcidas, são de vários tamanhos, o bebê agita os braços tentando pegar alguma, meia hora depois a moça olha o relógio, guarda os objetos na bolsa do carrinho e o empurra para longe das bolhas, o bebê começa a chorar. O rapaz de bermuda azul e camiseta branca é um voluntário, orienta meia dúzia de pessoas idosas que seguem atentamente suas instruções de exercícios físicos, basicamente erguer os braços, alongar, abaixar, contorcer para a esquerda e para a direita, afastar e juntar as pernas. O senhor de boné, camisa de manga curta e calça comprida, sapatos engraxados, permanece sentado no banco de ferro lendo a mesma página do jornal dobrado ao meio duas vezes. Duas mães amigas conversam e seus filhos são uns dos que estão se atirando pelo escorregador para cair num buraco da areia. Um casal está deitado sobre uma toalha vermelha e preta estendida sobre a grama, mais perto do lago,  são jovens, conversam e se beijam. Perto deles um mendigo não acordou ainda, eles o ignoram, mas o senhor que está sentado no banco de ferro lendo o jornal o vigia. Homens e mulheres passam correndo e suando, dão várias voltas, se esquivam dos ciclistas e dos patinadores. Um homem vende sorvetes derretidos e se desculpa. Dois adolescentes são  anjos do parque, recolhem o lixo e entregam panfletos com mensagens ecológicas, vestem camisetas estampadas com propagandas.  Uma bola de borracha é chutada na direção do senhor de boné sentado no banco de ferro e o jornal cai de suas mãos, isso o  aborrece bastante, ele  levanta e vai embora. Minhas crianças posso vê-las sentadas na beira do píer, atraindo os patos do lago. Há um  cachorro e seu dono, o animal é de porte grande, eles parecem cúmplices, a corrente de ferro com elos grossos é um troféu para o indivíduo de estatura média que controla o animal. O mendigo acorda, e me escolhe para pedir um cigarro, eu nem fumei mas ele intui o maço dentro da mochila, eu empresto o isqueiro e ele traga seu café da manhã,  faz um gesto qualquer com a mão que segura o cigarro, eu aquiesço com a cabeça e ele se vai carregando a casa nas costas.

Continuo sem desejo contemplando bambus.

Recolho as crianças, vamos embora. Recolho também o jornal que o senhor de boné jogou no cesto de lixo, na quarta parte dobrada está a notícia do estupro de uma jovem de dezenove anos, aconteceu há duas noites aqui no parque, é o terceiro caso este ano  e a manchete alerta para o maníaco, a moça foi encontrada  morta sob um dos bancos de ferro, junto com os livros do curso noturno do segundo grau, atiro o jornal na próxima cesta,  minhas crianças estão bem-humoradas e saudáveis,  o parque é muito inofensivo em domingos de sol.

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