Grafites: Riscos & Rabiscos

Grafite. (Do it. Graffito) S.m. Inscrição ou desenho de épocas antigas, toscamente riscado à ponta ou a carvão, em rochas, paredes, vasos etc.

Pichação. Brás. S.f. 1. Ato ou efeito de pichar; pichamento.

2. Dístico, em geral de caráter político, escrito em muro de via pública.

Pichar. Brás. V.t.d. 1. Aplicar piche em; untar com piche.

2. Escrever (dizeres políticos, por via de regra) em muros ou paredes.

(Novo Dicionário Aurélio).

 

 

Quando arqueólogos descobriram palavras e desenhos inscritos em cavernas, rochas e monumentos antigos, usaram a  palavra graffiti para designar os rabiscos que provavam a existência de muitas civilizações primitivas e a sobrevivência de linguagens e cultos. O grafite serviu para datar ruínas e fornecer indícios sobre a vida cotidiana em determinadas épocas (como os grafites de gladiadores em Pompéia). Além disso, sob a forma de riscos quaisquer, feitos a carvão, era usado para adulterar figuras, estátuas e monumentos.

 

Um dos grafites mais famosos do mundo, segundo alguns estudiosos, é a caricatura de Cristo crucificado da parede da Domus Gelotiana, no Paladino, em Roma,  que foi descoberto no século dezenove.

 

Atualmente, o grafite é encarado como forma de expressão que visa a comunicação rápida, autêntica, irreverente e até mesmo violenta do inconsciente coletivo. O grafite tem a intenção de registrar uma visão do mundo, de ser testemunha e memória, de ser, inclusive, arte. Uma arte que propõe a substituição dos meios de expressão convencionais, principalmente os de expressão literária e das artes plásticas; que transforma os valores estéticos; que revela pequenos fenômenos históricos; que anuncia ruidosos movimentos de vanguarda; que demonstra inventividade poética e que, por fim,  se choca com o ambiente social por causa da precariedade do material empregado em sua fabricação.

O termo grafite é, pois, destinado para traduzir toda uma variedade de manifestações de sentimentos e emoções que se faz questão de inscrever em algum lugar. Já a pichação  é caracterizada essencialmente pelo seu conteúdo político-social, pelo relaxamento estético, pelo processo de militância implícito no ato e, hoje, principalmente, para a comunicação e marcação de territórios de gangues e guetos

 

Brasília: grafites povoam o coração da cidade

 

Era o branco e o cinza. Era o meio. Veio a mensagem. A mensagem e o meio. Nem todos souberam dar o recado nem usar os meios. Os que torcem pelo grafite dizem que o amor veio primeiro: Lúcia, volte! Os pichadores acham que foi a contestação: Abaixo a ditadura!

Depois chegaram os poetas: Poesia Brasileira S/A; Sou um poeta, sem eira nem beira;Maria, venha conhecer minha alquimia; Nosso amor já era louco antes das novelas

E as reivindicações, denúncias e campanhas: Quem ama não mata; Ou nós UNE ou nós acaba; Jari, quero pôr o pé aí;  Mais verbas para a educação; Por melhores condições de trabalho; Pela Constituinte, etc. Os místicos avisaram: Os OVNIS estão chegando, e desenharam imagens e signos. As minorias aproveitaram para conquistar espaço e notificar meio mundo: Carlão ama Pedro Henrique; Eu amo Maria Tereza, Cláudia.

Alguns grafites de utilidade pública, nos pontos dos ônibus: Senta que vai demorar. Alguns “toques” como Quem fez 68 não fez 74. Um bocado de anarquismo e nonsense: Macarrão, the blue man 83; ZéCarlosmania. Internacionalização: Solidariedade. Nomes: Lula, Delfim, Azevedo (os mais votados pelos pichadores).

E veio a mass media, a propaganda gratuita, a artística e em seguida, a eleitoral. Gonzaguinha (o cantor, filho de Luís Gonzaga), foi multado pelas pichações de Explode, coração. Nessa explosão confundiram-se grafites e pichações, mas ambos passíveis de punição.

Existem grafites em Brasília. Há, porém, em muito maior quantidade, pichação-poluição-visual, mau-gosto, uma carga enorme de negativismo, um irracionalismo antipático, clichês, agressões, deduragens, publicidade egoísta e muita, mas muita sujeira e pouca imaginação. Por que pichar placas de sinalização, orelhões, paredes de casas particulares ou comerciais, prédios públicos e monumentos com revelações sem sentido, alucinações idiotas, palavrões e humor negro, mergulhando a cidade em um clima baixo astral, deprimente e hostil? Onde o sentido mágico que belos grafites podem proporcionar aos habitantes de uma cidade que precisa tanto de cor?

Os  comerciantes reclamam das pichações e da sujeira que fazem nas paredes de seus imóveis. O Código de Edificações (específico para Brasília) proíbe a pichação e prevê punição para os infratores. A maior parte dos trabalhadores em obras de construção civil, por exemplo,  acha que  algumas pichações são bonitinhas, alegram o ambiente, mas não gostam quando pintam frases feias, palavrões ou coisas ininteligíveis para eles.

Mas já é possível distinguir grafiteiros de pichadores. A população já se acostumou e  até gosta dos grafites que enfeitam muros e tapumes na cidade.   Há mesmo  grafites interessantíssimos e esses artistas de rua  merecem incentivo. Aos pichadores, água e sabão

 

Opiniões de quatro pessoas ligadas às artes que observaram, analisaram e discutiram o grafite

 

“O grafite revela uma forma viva, inquieta e provocativa de participação e comunicação. Às vezes é um relato, uma fantasia não realizada, um depoimento sofrido ou debochado, talvez de quem sente necessidade de se expressar.Como forma de comunicação, parece-me que o grafite é uma das expressões mais simples e fáceis, Ele existe tanto na Europa, nos Estados Unidos, como no Brasil. A diferenciá-lo apenas, mas fundamentalmente, a cultura de cada povo. Aí, observa-se que as fontes de preocupações traduzidas por meio do grafite são muito diferentes, até mesmo na forma de executá-lo. E é, quase sempre, a forma de execução que me desagrada. Observada a propriedade no aspecto físico, acho lindo e gosto muito. Gosto da coisa brincalhona, da denúncia contundente, do lirismo. Não gosto, e creio extremamente negativo, é quando o grafite é poluição, sujeira (grafite sobre grafite, grafite sobre cartazes, lugares inadequados…). Acho péssimo, por exemplo, ver a sinalização – que é belíssima – da nossa cidade totalmente grafitada, os viadutos “borroscados”, enfim…Na verdade, eu não gosto da coisa assim, suja. É possível, no entanto, que ao preferí-la mais arrumada eu esteja desejando uma arte que por si só é anárquica e objetiva a provocação, de uma ou outra forma. De repente é ruim e até errado acreditar que manter limpo o patrimônio de uma cidade é mantê-la civilizada…” (Wadel C. Gonçalves, professor, comunicólogo e ator de teatro).

 

“As pichações de 77 e 78 (foi o auge) refletiam a tensão psíquica que a cidade vivia. Eram pichações impessoais, muito mais criativas e mais graciosas e menos violentas. Depois que as pichações surgiram como tema de abertura da novela O amor é nosso, em padrão global, foram automaticamente incorporadas pelo sistema, virou mídia, perdendo o fascínio e a espontaneidade. As pessoas começaram a usar a pichação como propaganda, com fim determinado (que o verdadeiro grafite não tem). As pichações de antigamente eram mais saudáveis (Sexoral é bom, Sabor de veneno, Vamos nessa Vanessa, Ouvir a vaia do vento, Ora, Aurora etc). Hoje elas são muito agressivas e personalizadas, parece que a crise de identidade aumentou, todo mundo quer ver seu nome “impresso”. Além do mais, entra a questão da poluição, não só visual, como ambiental. Constatou-se nos últimos anos que a camada de ozônio (uma espécie de oxigênio concentrado que fica em uma das últimas camadas da estratosfera), é afetada pelo uso de aerossóis. Estes, em forma de spray, liberam, entre outros elementos, o cloro, que pode quebrar as moléculas de oxigênio dessa camada. Sem o ozônio a vida na terra seria impossível, pois ele filtra os raios ultravioletas, protegendo o planeta. Uma forma ecológica de pichar é usar carvão, gizão de cera, pois ainda não se inventou um spray sem propelente. Em todo caso,l eia atentamente o rótulo”. (Nicolas Behr, poeta e ambientalista)

 

“O grafite é um estado de espírito; para colocá-lo para fora, um estado de explosão. Impossível analisá-lo sem o risco da galhofa ou do excesso de autoritarismo. O grafite é arte. Cada um sente aquilo que vê. E pronto. Pietro Maria Bardi escreveu “merda” – e foi definitivo. Pessoalmente, acho que falta imaginação, e muita, nos grafites brasilienses. Talvez por ser a cidade que somos. Talvez por termos a origem que temos, nossos grafites são pobres. São copiados e, não  raro, apelativos. Os homens que definem nossas vidas estão aí, ao lado de habitações tipo BNH, os políticos; esta é uma cidade cultural, política e administrativa. Tudo poderia gerar bons grafites e, por certo, não haveria sabão e detergente para limpar todos. O grafite é a alma – oculta – de uma cidade. Brasília, que eu adoro, precisa mostrar sua consciência grafítica. Pego meu spray/E faço no muro branco/Minha Guernica/Sob todas as condições e pressões/Ditadas pela criatividade freudiana:/Qüid me vis facere, Domine?(José Carlos de Souza, jornalista e publicitário).

 

“O grafite prova que não tem quem segure a boca de quem quer falar. Que não existem obstáculos para o se expressar. Se você não tem grana para publicar livros ou comprar tintas e papéis maravilhosos, o que acontece é de sair por aí com tinta de parede mesmo ou spray, lançando seus recados. Acho maravilhoso. O grafite atual deve ter nascido do arrocho, da pobreza, em algum bairro nova-iorquino, imagino. Aliás, tem grafites e grafites. Tem uns ótimos, cheios de humor, que você até olha distraído e acaba soltando risada. Há os muito gráficos, grafites cheios de grafismo, e os políticos, tipo mandando recadinhos, marcando encontros, reivindicando. Agora, é preciso que se tenha simancol. A responsabilidade do grafiteiro é grande, ele atinge multidões todos os dias. Queimar espaço branco quase sempre pra falar besteira não está com nada. Em Nova Iorque, teve um ano em que o prefeito de lá liberou o metrô e os trens para serem decorados pela população. Distribuiu spray de graça pra quem quisesse e o resultado foi um lixo geral. Foram usados litros de tinta para borrocar tudo, numa des-repressão que chegou ao vandalismo. O que eles passaram de emoção foi uma sujeira, um negócio muito down. Brasília é uma das poucas cidades que existem que não tem prédios altos nem fábricas poluindo o ar; é uma cidade muito clara, branca, com um visual que descansa a cabeça das pessoas.  Acho que o grafite só deve ser utilizado por quem tem alguma coisa importante pra dizer, uma necessidade interior muito grande mesmo de se expressar.  Há uma diferença enorme entre pichação e grafite.  O grafite é uma coisa artística, algo como eu vi também em Nova Iorque: escrever poesia com giz, no chão, onde todo mundo vai passar em cima e apagar, mas onde muita gente também vai parar e  ler o poema.” (Regina Ramalho, artista plástica).

Publicado originalmente em 1983 no Correio Braziliense

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