Jano

Arthur Koestler (1905-1983),  escritor búlgaro de romances de ficção de reconhecido sucesso mundial  e de profundos ensaios políticos, perdeu o interesse por esses gêneros da literatura, atraído que foi por um romance bem mais real e misterioso – a magnífica epopéia da evolução da vida e do homem. Koestler foi um fenômeno porque mergulhou num campo que não era o seu e, surpreendentemente, conquistou respeito e admiração da comunidade científica, desenvolvendo teorias revolucionarias que receberam a atenção e  aceitação dos mais destacados físicos, geneticistas, psicólogos, neurofisiologistas e outros pesquisadores da atualidade.

 

Para aqueles que venham a se mostrar preconceituosos em relação a Koestler por ser ele originalmente um escritor de romances, a título de ilustração vale lembrar que o famoso “paradoxo de Olbers”, ou seja, do porquê  o céu à noite ser escuro, que durante três séculos e meio desafiou astrônomos do porte de Kepler, Halley, Olbers e outros, foi finalmente explicado por Edgar Allan Poe em um de seus ensaios (Eureka, 1848). Como se vê, há precedentes, embora raros.

Quem é Jano?

                       

“Este livro é uma sinopse (e também continuação) de livros publicados durante os últimos vinte e cinco anos, desde que deixei de escrever romances e ensaios políticos, dedicando-me às ciências da vida, isto é, à evolução, criatividade e patologia da mente humana”. (Arthur Koestler, 1977)

 

Um deus romano possuidor de dois rostos opostos. Esta é a representação simbólica de um hólon, conceito básico de toda  a teoria de Koestler, que “se destina a conciliar os enfoques atomista e holista”. E é ele quem explica: “os hólons biológicos são sistemas abertos auto-reguladores que possuem tanto propriedades autônomas de todos, como propriedades dependentes de partes. Essa dicotomia está presente em cada nível de cada tipo de organização hierárquica e recebe a denominação de “fenômeno de Jano“. De modo mais geral, o termo hólon pode ser aplicado a qualquer subtodo biológico ou social estável que apresenta comportamento governado por regras e/ou constância gestáltica estrutural”. Exemplos de hólons seriam a palavra, que se comporta como um todo em relação às sílabas e como parte em relação à frase (as duas faces de Jano) ou uma célula que é o todo em relação às suas organelas e parte em relação ao tecido que ajuda a formar. O tecido, por sua vez, é o todo em relação às células que o compõem e parte em relação a um órgão.

É então necessário notar que cada subparte é também um subtodo e que a soma das propriedades das partes não é igual às propriedades do todo que formam. A partir do conceito de subpartes que formam um sub todo que é sub-parte de outro subtodo, e assim por diante, foi constatada a estrutura hierárquica que forma os seres vivos e, em última análise, todas as estruturas da matéria. Cada parte (ou sub-parte) é, pois, um possuidor de tendências auto-afirmativas (indivíduo) e integrativas (em relação a um subtodo que lhe está imediatamente acima na hierarquia do sistema a que pertence).

Mas esta explicação um tanto técnica desdobra-se em teorias, situações, discussões e circunstâncias históricas intensamente atraentes, configurando um verdadeiro romance científico que trai as origens literárias do autor.

Dentre as muitas alegrias que Jano nos proporciona merece  realce, talvez, o conhecimento que nós dá sobre a gradativa pulverização a que vêm sendo submetidos os truísmos da filosofia reducionista e os de seus dois mais destacados abortos intelectuais: o behaviorismo e o neo-darwinismo. Como é agradável, por exemplo, sabermos que não somos simples máquinas complexas, submissas aos padrões de estímulo-resposta;  que a consciência, intelecto e idéias possuem existência real e não são apenas “inventadas para possibilitar explicações espúrias“, nas palavras de Skinner (professor da Universidade de Harvard, que foi um dos papas do behaviorismo moderno).

E quão gratificante se torna o conhecimento de que a teoria da evolução das espécies (ou da vida), como conseqüência do puro acaso modelado pela seleção natural, começa a perder terreno de forma célere. Afinal, quem não fica feliz em saber que realmente decide o que fazer em determinada circunstância em vez de apresentar respostas automáticas aos estímulos do meio ambiente, disfarçadas em livre-arbítrio, como pretendem os behavioristas? Ou quem pode negar satisfação de nos sabermos frutos de evolução direcionada e intencional e não apenas resultado de um número de roleta onde a bolinha da evolução caiu, como rezam os neo-darwinistas?

 

 

O fim do materialismo

Pelos rumos que as novas teorias e conhecimentos vão assumindo e pelo grau cada vez maior de aceitação que vão encontrando junto a   pesquisadores dos diversos campos das ciências físicas, biológicas e sociais ou humanas, é lícito esperar que, caso nossa humanidade sobreviva à sua  própria insanidade e supere suas crises, os séculos futuros irão identificar o  século XX como uma longa época de obscurantismo filosófico-científico, não obstante a extensa gama de quinquilharias que a tecnologia nos vem doando nas últimas décadas.

O fenômeno social que pode ser inferido de nossa época (e provavelmente de todas as outras, embora em doses mais módicas, em função dos meios de comunicação obsoletos de antanho) diz respeito ao fato de os conceitos filosóficos e científicos  temporais de uma “elite” intelectual (refiro-me aqui como intelectual àquele reduzido número de indivíduos de quem emanam novas idéias, teorias e descobertas e não à maioria que apenas faz absorver o conhecimento por eles doado) penetrarem de  cima para baixo na pirâmide cultural das sociedades e serem assimiladas como verdades definitivas, dando origem ao “espírito da época”, sob a forma de conceitos difusos e amplos, inteiramente dissociados em termos de consciência individual e/ou coletiva, da credibilidade das idéias  que lhes deram origem e das fontes de alimentação cultural que se mantêm isoladas e todo-poderosas no ápice da pirâmide.

Nós, cá embaixo, sofremos corno que o impacto de ondas especulativas do conhecimento acadêmico e, caso não tenhamos onde nos bem segurar, somos levados de roldão. Infelizmente, à maioria das pessoas se torna impossível discernir entre o conhecimento estável e definitivo (quase nada) e o que se constitui em mera especulação filosófica, teórica e mesmo empírica nos diversos ramos da ciência (inclusive a política e a economia). E sendo a vida razoavelmente curta e a desmistificação de conceitos tradicionais, ainda que equivocados, relativamente lenta, o homem morre, no mais das vezes, sem descobrir que foi literalmente enganado por toda uma vida e que as “verdades” com as quais edificou seus valores filosóficos (se é que os tinha) não passavam de meias-verdades ou mesmo erros gigantescos.

Quem vem acompanhando as modificações do pensamento filosófico-científico começa a sentir o aroma de terras já dantes navegadas, embora com as transformações ditadas pelo tempo. Parece que estamos iniciando um árduo caminho de volta, que começamos a abandonar uma era de materialismo que, se em muitos casos não se manifesta nas idéias individuais expressas, está presente corno um todo no comportamento da humanidade, apesar da resistência do “espírito de época”. Mas as novas ondas emanadas do ápice da pirâmide hão de chegar até nós, mais cedo ou mais tarde, com força crescente, transformando os conceitos daquela maioria cujo destino parece ser o de se deixar levar ao sabor das ondas. Como Koestler percebeu, se “a própria matéria foi desmaterializada pelos físicos, o materialismo não pode mais apresentar-se como filosofia científica“.

 

De volta ao Idealizador

A teoria de Koestler é um passo a mais neste retorno filosófico. Ela nos deixa como que no meio do caminho, como se pode deduzir do seguinte trecho do livro: “(…)Portanto, o velho enigma a respeito do Idealizador oculto atrás do propósito pode ser deixado à parte. O Idealizador é todo e cada um dos organismos, desde o despontar da vida, que lutou e se esforçou para fazer o máximo dentro de suas limitadas possibilidades. E  a soma total dessas ontogenias reflete o ingente esforço da matéria viva para a melhor realização do potencial evolutivo deste planeta“.

Ora, a olhos aguçados este texto terá produzido a sensação de algo já visto.  Reparem bem: se com uma roupagem científica não é o nosso conhecido panteísmo que renasce das cinzas. Esta é uma das paradas necessárias no caminho de volta, ao menos para tomar fôlego antes de prosseguir.

Num outro trecho, que merece mencionar aqui, Koestler cita o biólogo Albert Szent- Gyorgyi. Este cientista propôs o termo sintropia, em lugar de negentropia, por ele definido como um “impulso inato da matéria viva para aperfeiçoar-se a si mesma“. O biólogo chama atenção para seu equivalente no nível psicológico como sendo “um impulso para a síntese, para o crescimento, para a totalidade e o auto-aperfeiçoamento.

Concluir que a matéria, por si só, é capaz de se auto-dirigir num “esforço ingente a caminho da evolução, através de propriedades que lhe são intrínsecas, convenhamos que é bem mais gratificante a nosso  bom senso do que o puro acaso ou o esquema estímulo-resposta da atividade comportamental. Contudo, ainda deixa lacunas (e como!) a serem preenchidas.

Aliás, aqueles que tiveram o privilégio de ler O fenômeno humano hão de sentir a aproximação dos conceitos expressos acima e aqueles desenvolvidos por Teilhard de Chardin, como este propõe: “Essencialmente, assim a admitiremos, qualquer energia é de natureza psíquica. Mas, em cada elemento ‘particular’ esta energia fundamental se divide em  duas componentes distintas: uma energia tangencial –  que  se torna o elemento solidário de todos os elementos da mesma ordem, isto é, da mesma complexidade e da mesma ‘centreidade’ que ele mesmo no Universo, e uma energia radial, que o atrai na direção de um estado cada vez mais complexo  e centrado, para a frente”.

Os que se sentirem estimulados a ler Jano  e O fenômeno humano verificarão que eles estão à distância de um simples passo a ser dado pela própria ciência num futuro ainda indeterminado.

O próprio Koestler, assumindo uma atitude científica de humildade, tão rara no estranho mundo a que pertence, escreve: “Não alimento ilusões a respeito das perspectivas da teoria que estou propondo. Será  inevitável que os novos progressos do conhecimento demonstrem as falhas dessa teoria em vários ou até na maioria de seus aspectos. Para o momento, espero que ela realmente contenha uma minúscula parcela de verdade“.

Jano foi publicado no Brasil pela Editora  Melhoramentos, com tradução  de Nestor Deola e Ayako Deola.

Algumas das obras mais conhecidas e importantes de Arthur Koestler: Os sonâmbulos – A História das Idéias do Homem sobre o Universo, O Zero e o Infinito, As razões da coincidência, Os gladiadores, O iogue e o comissário.

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