Um Ato de Consumo

Ela acorda de um sonho de cinema. Levanta bem disposta para cumprir os compromissos na academia, na esteticista e no salão de beleza. A roupa foi comprada ontem, os sapatos e a bolsa também. E a lingerie.  Um homem chegará à noite e ela vai esperá-lo no aeroporto. Ela gosta de aeroportos, de ficar olhando os letreiros que anunciam arrivals e departures, de rir dos vôos que atrasam, de sentir a tensão das pessoas que vêm do ar e das que estão em terra, da expectativa de possíveis atentados terroristas. Gosta de ler revistas enquanto espera, ver as fotos dos ricos e famosos.

Ela expande um azul prateado no vestido curto colado no corpo, uma veste de silicone, e desliza no piso cerâmico quadriculado sobre saltos de acrílico. Todos olham sua fantasia. Será uma noite perfeita, mas sem surpresas.

O homem por quem espera é de uma corporação poderosa, presta consultoria a políticos, empresários e mulheres. Prático, eficiente e muito higiênico. Durante as dez horas do vôo trabalha no laptop, lê cinco jornais em cinco idiomas, reprograma a agenda, reserva duas horas da tarde de amanhã para a aeromoça peituda, reconfigura o toque do celular, marca pontos num joguinho do celular, tira uma foto do traseiro da aeromoça, confere os dólares, cheques de viagem, o tíquete da bagagem e engole seis doses de uísque 12 anos e duas aspirinas. Pressiona o botão mágico do relógio de cinco em cinco minutos e o brinquedo fosforesce. Vai ao banheiro duas vezes, numa delas se masturba rapidamente.

Ela vai ao toalete do aeroporto, esvazia toda a bexiga, lava as mãos, olha seus ângulos no espelho comprido, retoca o batom, passa mais rímel nos cílios, mais perfume na nuca e corretivo nas olheiras. Ouve a voz  treinada avisando que o avião está no pátio. Desfila calmamente até o portão do desembarque, as luzes estão acesas e o vestido azul agora é mais cor de prata.

Seu passageiro atravessa a porta automática, homem grande, alto, imponente, importante, tão importante que ali ninguém mais existe, o aeroporto é todo dele. Ninguém o impede, ninguém lhe atravessa o caminho. Abre-se um corredor de reverência, ele segue em direção ao vestido azul-prata com pressa cronometrada. Não diz um cumprimento, em nenhum dos cinco idiomas. Basta um toque no cotovelo e ela o segue até o carro preto, já com a porta aberta e bem segura pelo motorista adestrado. A cena é rápida e em poucos minutos o carro está fora do perímetro do aeroporto. O motorista entra na autopista em confiante velocidade.

Ele liga o celular, o traseiro da aeromoça ilumina o interior do carro. Faz três chamadas seguidas, um idioma diferente em cada uma. Na quarta ligação a linguagem é codificada. Desliga o celular  entediado com o traseiro da aeromoça,  recosta a cabeça no couro macio do banco, fecha os olhos e a cidade passa.

O carro estaciona na porta do hotel, o homem dispensa cerimônias, o motorista adestrado sabe o que fazer. Na recepção rabisca palavras e uma assinatura no papel e  pronuncia algumas ordens. Um jovem ajudante adianta-se à frente com a mala. Ele toca-lhe o cotovelo conduzindo-a ao elevador. No oitavo andar   o jovem rapaz passa o cartão magnético na porta da suíte e faz-se luz. A mala é deixada no lugar apontado e o ajudante é gratificado com um gesto inquestionável de boas maneiras empresariais. Ela o segue, amestrada, dentro do vestido azul prateado, a porta é fechada, o cartão é responsável pelo bom funcionamento eletro-eletrônico do ambiente. Ele coloca o laptop e outros objetos na mesa da sala. Vai ao banheiro, ela ouve a descarga, depois o barulho da água da torneira.

Ele tira o paletó, a gravata. Lembra-se de olhar para ela, abre e retira da mala um pequeno pacote vermelho e joga na cama. Outro perfume. Ela agradece com a mesma displicência.

O serviço do hotel  cumpre as ordens e entrega o pedido com solene discrição. Ele mesmo se serve de uma dose dupla da garrafa do uísque, reconhece entediado o rótulo azul 12 anos. Leva o copo até a varanda, respira fundo  e bebe consigo mesmo,  durante não mais que dez minutos, de pé, sem apoiar-se no parapeito, sem conferir a vista da cidade.  Ela ouve o barulho do gelo no último gole, o pequeno som do copo deixado sobre uma superfície.

Ele volta para o quarto, regula a intensidade da luz. Ela está sentada na beirada da cama, o vestido curto, azul prateado, as pernas cruzadas, as belas coxas. Na pose, guarda o pacotinho na bolsa e empurra  os pés para fora da plataforma de acrílico.

Ele sorri, vai até o outro lado e senta na cama. Tira os sapatos, desabotoa a camisa. Agarra-a por trás, trazendo-a pelo pescoço até sua boca encontrar a nuca perfumada. Ele sente o cheiro e  o gosto do outro perfume e afirma que o que trouxe hoje é melhor e mais caro. Em seguida diz: Vem dar pra mim. E numa virada atlética joga-a de costas na cama, sem cuidado com o vestido.  Excita-se.Tira a camisa, a calça, a cueca de seda. Beija-a salivando, segura seus cabelos, alguns fios prendem-se na pulseira do relógio, ela sente pontadas na cabeça quando os fios se vão. Ela o afasta para poder tirar o vestido, ele se apressa, puxa-o de uma vez só e lança-o em algum lugar. O sutiã de renda preta sem alças é deslocado para o estômago, ele amassa seus seios com as  mãos, com a boca. Com mais pressa  ele  puxa sua calcinha também de renda preta pernas abaixo com uma das mãos e um dos pés.  Ele coloca-se em posição, calcula o ritmo, segura seu pênis duro e mete-o dentro daquela vagina lubrificada com gel no banheiro do aeroporto. Ela conta até dez enquanto ele goza, Mais dez enquanto ele solta o peso do corpo sobre o seu, antes de rolar para o lado e cair em sono pesado, sem fuso horário.

Ela pega o vestido no chão, um azul amassado, um resto de prata. Alegra-se com a cor verde das notas de dólares, novas, dobradas ao meio, presas com tira elástica, deixadas no lugar de costume. Cheira-as intensamente. E goza no perfume do dinheiro.

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